segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Em nome da causa

http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4729

por Christina Fontenelle

em 30 de março de 2006

Resumo: Punição para Antonio Palocci? Talvez o ex-Ministro seja "condenado" a receber qualquer 20 milzinhos por mês para escrever em algum periódico, como se nunca tivesse feito nada de errado.

© 2006 MidiaSemMascara.org

O porta-voz do PT na Rede Globo, Franklin Martins, tratou de fazer sua parte e divulgar, no Jornal da Globo de 27/03, com ares de comentarista bem informado, que o Ministro Palocci foi DEMITIDO pelo presidente Lula porque quebrou a confiança que existia entre os dois. Franklin diz que Lula, ao "descobrir" que Palocci havia recebido o extrato da conta do caseiro Francenildo, diretamente em sua casa e pelas mãos do próprio então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, disse ter acabado a confiança em Palocci porque o Ministro havia mentido para ele. Essa é a versão que a nomenklatura petista vai querer impor à sociedade.

Vão sacrificar publicamente Palocci, em nome da causa. Todo mundo sabe que o Ministro era alvo de inúmeras denúncias, a maioria bastante antigas, relacionadas à prefeitura de Ribeirão Preto. O figurão sempre desmentiu tudo, com a maior cara de pau e nunca foi empurrado para o sacrifício porque, como todo mundo já sabe também, para o governo do PT, apoiado pelo aparato judicial do Estado, prova mesmo contra alguém do partidão, só se for confissão assinada.

Até o episódio da quebra ilegal de sigilo do caseiro, o governo sustentava todas as, digamos, inverdades pronunciadas pelo Ministro – mesmo porque (e todo mundo sabe também) ele nunca fez nada por si mesmo e sim para o partido e em nome do projeto de poder do PT. O partido sempre fez questão de manter a imagem sacrossanta de Palocci, tanto na vida pessoal, como na sua atuação política e mais ainda como Ministro da Fazenda – coisa que, mais uma vez, todo mundo sabe estar bem longe de ser verdade, não só em relação a Palocci, como também a muitas (quase todas, eu diria) das pessoas que atuam na administração petista.

Entretanto, o golpe da quebra de sigilo do caseiro foi de uma burrice incomensurável e não pôde ser relevado – o homem foi sacrificado e entregue ao justiçamento público e legal, para que o Presidente possa vir a público dizer NOVAMENTE que foi traído. "É um coitado, inocente, que vive sendo apunhalado pelas costas por seus homens de confiança. Mas, quando descobre a verdade, ele demite e afasta os maus elementos, mesmo que continue achando que tudo não passe de intriga da oposição". É isso que vão querer enfiar goela abaixo da população, MAIS UMA VEZ.

Vou repetir: é bom que não se atribua aos maus a inteligência. A maldade é uma questão de talento. A inteligência está intrinsecamente associada à bondade. Não me canso de dizer isso porque é a mais pura verdade e, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo observada.

Todos os elogios que se faz à atuação de Palocci no Ministério da Fazenda são feitos na medida de sua capacidade de MANTER a política econômica do governo de FHC, com alguns ajustes em relação à maneira de conduzir as Dívidas Públicas, interna e externa – muito provavelmente a menina dos olhos da arrecadação escusa do partidão e o mais sólido instrumento de engodo aos olhos daqueles que ainda não estudaram que alguns aspectos da economia capitalista não só podem como devem coexistir com a ditadura comunista, justamente para que essa possa sobreviver.

Agora, Palocci terá que responder a todas as acusações nos cerca de 50 processos de corrupção sobre sua atuação na Prefeitura de Ribeirão Preto e ainda será indiciado pelo caso da quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro – isto para não citar que o extrato bancário da Caixa Econômica é apenas uma pequena parte de um suposto dossiê encomendado e obtido pelo partido, contendo toda a movimentação financeira de Francenildo, bem como sua história de vida.

Segundo nota no Blog de Cláudio Humberto, parece que o próprio Lula já estava a par do tal dossiê, pelo menos desde o dia 16/03, quando a Senadora Ideli Salvatti (PT-SC) teria lhe perguntado se o caseiro Francenildo seria desacreditado e o presidente teria balançado a cabeça afirmativamente. Ambos, Lula e Ideli, estavam em Florianópolis.

Lula fez como já havia feito com José Dirceu: na cerimônia de passagem do cargo de Ministro da Fazenda, de Palocci para Guido Mantega, "apesar de sentir-se traído por companheiros sem nome", o presidente mantém o discurso de "pequenos erros dos camaradas" e elogia o ex-Ministro, declarando sua amizade e solidariedade, dando mesmo a entender que, mais uma vez, teria perdido um "amigo de luta" para as fofocas e intrigas da oposição.

Então, vai ficar assim: a imprensa lulista vai implantar a versão "da traição e do mau comportamento" de Palocci e a sociedade vai ficar "berrando", pela Internet que não é nada disso, enquanto o povão ficará à mercê da mentirada, com direito a "cala-boca" do Bolsa Família. Punição? Talvez o ex-Ministro seja "condenado" a receber qualquer 20 milzinhos por mês para escrever em algum periódico...

Transfigurado pelo coitadismo

http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4720

por Christina Fontenelle

em 28 de março de 2006

Resumo: O cidadão que trabalha já faz "caridade" demais por obrigação e recebe muito pouca coisa ou nada em troca.

© 2006 MidiaSemMascara.org

Coitadismo? Termo derivado da palavra coitado – significa olhar para o outro ou tratá-lo como um coitado, um incapaz, digno de pena. Filosofia usada para justificar atitudes erradas e/ou criminosas com todo e qualquer tipo de explicação, desde que passe bem longe de tudo que possa ter relação com opção consciente ou simplesmente manifestação da índole de quem comete erro. Ato contínuo, é a filosofia daqueles que se julgam melhores do que outros seres humanos, outorgando-se o direito de sentenciá-los a viver eternamente dos cuidados e da caridade de outros ainda, que são igualmente sentenciados, por essa mesma filosofia, à subserviência provedora.

Mesmo que ainda haja quem acredite na figura romantizada do homem do povo brasileiro, alegre, honesto e trabalhador, a verdade é que a cultura da coitadização criou um monstro de dupla personalidade, que assume uma das duas, conforme a situação em que se encontre: ora é um ardiloso ladrão, cínico, praticando pequenos furtos e delitos, em seu local de trabalho, no convívio social ou nas práticas comerciais, enquanto blasfema pelas costas daqueles que julgam mais afortunados; ora é humilde vítima da miséria, do capitalismo selvagem, quando se vê em situação de ter que dar explicações sobre sua atitude errada ou criminosa.

Aprendeu a simular a atitude que convém a cada momento. Aprendeu a manipular a culpa dos que nasceram em berços mais privilegiados. Quando não lhes podem arrancar os bens e até a vida, essa criatura tripudia sobre a misericórdia dos mais afortunados, como se estes não entendessem nada de manipulações psicológicas, por não terem freqüentado as escolas da rua e da pobreza. Incentivado até mesmo por alguns presidentes da República e pelo que vê na mídia, acredita realmente que a dura realidade do abandono das ruas ou da miséria o tenha melhor preparado para a vida do que àqueles que viveram sob um lar, com direito à educação, atenção e lazer. Não deveria ser o contrário?

A cultura do coitadismo é sem dúvida um dos pilares da criação do cidadão universal, apátrida e politicamente correto. Mas, em tendo como propósito tirar dos homens a consciência sobre sua natureza e afastá-lo do exercício de seu livre arbítrio, o universalismo não pode estar pretendendo outra coisa senão o próprio aniquilamento físico da raça humana – a extinção -, uma vez que, para cada três ou quatro gerações de homens em que funcionem muito bem as engrenagens dessa moldagem planejada, aparece uma variante insurgida das profundezas instintivas da criatura, manifestando sua divindade criativa.

Os mecanismos que foram sendo criados para padronizar comportamentos e fomentar o patrulhamento ideológico e comportamental acabaram por promover uma inversão de valores que, para sobreviver à lógica e aos instintos humanos, precisa ser imposta, primeiro pela propaganda permanente, depois pela subversão e, finalmente, pela criação de leis, atribuindo os mais diversos tipos de penas judiciais a quem não obedecê-las.

Acontece que, quando se pensou chegar à vitória sobre certos condicionamentos humanos, uma vez que se pensava que as leis acabariam por controlar ou reduzir substancialmente algumas práticas, o ser humano subverte o sentido primeiro do condicionamento. Por exemplo, esse processo de subversão vem dando origem a alguns fenômenos de efeito totalmente diferente do que os que se pretendia obter, pelo menos aparentemente, especialmente no que se refere à imposição da benevolência e da permissividade em relação aos chamados injustiçados.

Um destes fenômenos é a ojeriza dos injustiçados, por parte dos indivíduos que não fazem parte deste grupo. Dessa forma, o que talvez pudesse acontecer, em muitos casos, como uma atitude de caridade ou instintivamente ética, para com outro ser humano, acaba se tornando inviável, uma vez que as pessoas já estão cansadas de ser submetidas a leis e obrigações, inclusive tributárias, muito mais justiçadoras do que justas. Isto é, leis que pretendem APENAS e supostamente proteger os tidos como mais fracos dos mais fortes, sem ter o menor compromisso com justiça, uma vez que partem de premissas falsas e de visão deturpadamente preconceituosa em relação aos mais afortunados – o chamado preconceito ao contrário.

Em outras palavras, o cidadão que trabalha já faz "caridade" demais por obrigação e recebe muito pouca coisa ou nada em troca. Isso cansa e revolta. Acaba inibindo o voluntariado e contribui muito mais para a segregação social do que para aquilo que, afinal e aparentemente, pretendia ser o objetivo da imposição legislativa.

Um outro fenômeno é a gradativa deformação do caráter dos menos abastados financeiramente, fazendo-os pensar que podem e devem tirar dos que tenham mais, sob qualquer pretexto, passando por cima de tudo que sabem muito bem ser o correto – adotam conscientemente a idéia de que o que julgam ser um erro (uma injustiça) justificaria outro erro (justiçamento). A intensa coitadização dos menos favorecidos, pela mídia e pelos próprios exemplos dados pelas decisões judiciais, principalmente no que se refere às questões trabalhistas, acabou por fazer o homem do povo acreditar que os erros e os crimes que comete sejam justificáveis e, por isso, menos imputáveis, por causa dos princípios "robinwoodianos" de justiçamento em que se baseiam.

Ainda uma terceira coisa acontece, que está mais para conseqüência dos dois fenômenos acima citados, do que para o título próprio de terceiro fenômeno: como rico de verdade é praticamente inatingível, por causa de seu poder, de todas as suas blindagens (inclusive presente nos carros por onde trafegam pelas ruas), dos ambientes que freqüenta, etc., quem sofre com a ação robinwoodiana dos menos favorecidos é a classe média - que, na realidade, passa a representar o rico inimigo. Não há como fazer um pobre entender que uma pessoa de classe média não seja rica, principalmente porque o ideal de vida dos pobres seja, na verdade, o que ele imagina ser a vida da classe média. Não há como convencer um pobre de que a união com esta classe faria muito mais por todos do que a tal da luta de classes – interesse exclusivo daqueles que pretendem nivelar todos por baixo (os comunistas, socialistas, intelectualóides, como se queira denominar).

A quem interessa, afinal, que pobres e classe média estejam em permanente e crescente animosidade entre si? Pois não sabem os pobres quem lhes poderia dar empregos? Não perceberam eles que o apadrinhamento do Estado jamais lhes tirou da condição da pobreza? Não sabem os pobres de hoje que há apenas uma geração estavam eles ao lado da classe média nos bancos escolares? Não sabem eles que muitas das "conquistas trabalhistas" acabaram, em última instância, por lhes tirar os empregos? Não sabem eles que muitas das conquistas do feminismo, nas questões de satisfação pessoal e de trabalho, por exemplo, acabaram por tirar os empregos dos de seus pais e, conseqüentemente, por tirar suas mães de casa também? Então, na verdade, quem lucrou com todas essas conquistas da modernidade, que diziam estar sendo alcançadas em seu favor e necessidade?

O atual Ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, quando candidato à Presidência da República, pelo PPS, em 2002, foi flagrado dizendo que o eleitor era burro. Por esses dias, o Presidente Lula, ao se referir ao caseiro Francenildo dos Santos Costa, que desmente algumas das declarações do Ministro Antônio Palocci nas investigações da CPI dos Bingos, disse que o rapaz não merecia crédito porque era um “simples caseiro”. São esses homens que empunham a bandeira de defensores do povo, dizendo estar lutando em nome de seu ideal. Pensam realmente esses intelectualóides que o "pobre povo" não vê nada disso? A consciência talvez lhe falte, por lavagem cerebral deslavada e covarde, mas não lhe falta instinto e muito menos inteligência.

O povo não é burro não e nem vítima de capitalismo selvagem coisa nenhuma. O povo é covardemente manipulado pela muito bem organizada indústria da desinformação. É, sim, sempre que possível, enganado, para pensar que está se manifestando em causa própria. Está sendo, isso sim, vergonhosamente transformado em soldado da causa socialisto-populista, que precisa de seu voto e quiçá de sua disposição em defendê-la, inclusive pelas armas.

As revoluções comunistas vêm sistematicamente sendo mal sucedidas no Brasil porque sempre passaram muito longe de adesões populares, por causa da herança genética e cultural da gente que povoa essa terra. O coitadismo foi a arma gramsciniana para injetar na veia dessa "gente que não sabe o que é melhor para si" o ódio necessário para a absorção do conceito de luta de classes, sem o qual não se consegue convencer nem uma criança de 5 anos de que o comunismo seja bom.

Ora, se o coitadismo vem fazendo parte da cultura governamental do Brasil, praticamente desde o descobrimento, então não é invencionice comunista, muito menos universalista. E se, como disse antes, essa filosofia de ação acabou por providenciar o aparecimento de comportamentos aparentemente divergentes de seus objetivos (comunização e/ou universalização), então como pôde ter se transformado em prática útil dentro do universo gramsciniano de luta comuno-revolucionária? Teria sido o próprio coitadismo apropriado pelos neo-revolucionários para que resultasse em tais fenômenos ou apenas a descoberta destes teria sido inesperada e agradável surpresa?

Sinceramente o "mot" daria para o desenvolvimento de uma boa tese de doutorado. Mas, para a realidade dos brasileiros, talvez fosse apenas útil começarmos a trabalhar para demolir, cuidadosa e estrategicamente, essa imensa muralha que vem sendo construída para separar os pobres da classe média. Infelizmente, eu não tenho a menor idéia de como isso possa acontecer sem que pobres e classe média possam transitar livremente pelos lugares onde vivam uns e outros e sem que possam estudar nas mesmas escolas. Alguma sugestão?

Quem é o inimigo?

http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4680

por Christina Fontenelle

em 18 de março de 2006

Resumo: Será o preço da liberdade a sua própria destruição?

© 2006 MidiaSemMascara.org

Houve uma época em que as parábolas foram usadas para se fazer entender aos que pouco ou nada compreendiam, sem que aqueles que supostamente entendessem pudessem captar. Hoje, apropriando-se do mesmo recurso, muitos delas se servem, mas por motivos opostos: para que possam falar aos que entendam, sem que aqueles que não compreendam possam captar o que tenha sido dito.

São cálculos aproximados, é verdade, mas, estima-se que sejam cerca de 14.500 conflitos armados, totalizando 4 bilhões de mortos, nos últimos 5.600 anos (3.600 a.C. a 2001 d.C.) da história da humanidade que, de uma forma ou de outra, puderam ser registrados. Apenas 292 anos de paz, sendo que, para muitos estudiosos, nunca deixou de haver, em algum lugar do planeta, homens num campo de batalha, mesmo que isoladamente. (Os dados são de matéria publicada na edição 132 da revista Os Caminhos da Terra).

Parece incrível, mas toda a evolução tecnológica não conseguiu fazer com que o cérebro humano deixasse de ser o senhor da guerra – aquele que faz a diferença entre a vitória e a derrota, não em um ou dois combates, mas na guerra. Não pela sua capacidade de produzir armamentos, organizar combates ou enfileirar soldados, mas pela habilidade (de poucos, evidentemente) de relacionar conhecimentos históricos, percepção da realidade, compreensão da engrenagem cerebral humana e de praticar o exercício de admitir suposições.

A História mostra isso. Independentemente da época em que tenham ocorrido, do tipo e da quantidade de homens e armamentos empregados ou das características topográficas dos campos de batalha, as grandes vitórias sempre foram obtidas por aqueles cuja inteligência permitiu a macro visão de determinada situação, num dado momento histórico, fazendo-os criar soluções para compensar as próprias deficiências e enxergar onde deveriam estar as do inimigo. Ou ainda, aqueles que, mesmo estando em vantagem, souberam inferir e se adiantar às criações alternativas do oponente mais fraco. Bem como muitas derrotas aconteceram, simplesmente, por causa da falta desta conjunção de qualidades, nos líderes combatentes, e não propriamente em virtude das qualidades de seus inimigos.

Há exemplos clássicos da excelência do cérebro privilegiado sobre as condições aparentemente vantajosas do oponente. No século XIII, o grande conquistador e imperador mongol Temudjin, mais conhecido como Genghis Khan, ao avançar vitoriosamente sobre a China, quando se aproximou de Pequim - o mais avançado centro urbano daquela época -, foi surpreendido com a visão de uma cidade toda cercada por muralhas de até doze metros de altura. Ele pôde verificar que suas famosas táticas de guerra, em campo aberto, nas estepes, não o ajudariam naquele momento. Então, acampou com seu exército, cercando a cidade e impedindo que os suprimentos a adentrassem, aproveitando-se, inclusive, deles, para suprir seu próprio exército. Com a ajuda de engenheiros chineses dissidentes, construiu catapultas e outros artefatos bélicos, promovendo ataques sistemáticos, até que, finalmente, pudesse invadir e dominar aquela cidade.

Um outro exemplo, bem mais recente, pode ser observado com o que aconteceu na Guerra do Vietnã. Na verdade, apesar de farta documentação a esse respeito, muitas pessoas ainda acreditam que os vietcongues (guerrilheiros que atuavam contra o governo do Vietnã do Sul, apoiados pelo Vietnã do Norte) e o exército norte-vietnamita venceram os americanos e o exército sul-vietnamita com patriotismo, força de vontade, poucas armas e táticas de guerrilha. Na verdade, os americanos se retiraram de cena e, três anos depois, os sul-vietnamitas é que perderam militarmente para os vietcongues e para os norte-vietnamitas – aliás, muito bem armados, até os dentes. O principal marco desta guerra, no entanto, é pouco, ou quase nunca, citado: foi a primeira vez que as liberdades democráticas da cultura ocidental (mormente a norte-americana), juntamente com seus avanços tecnológicos, foram usadas (incoerente, mas inevitavelmente) como uma das mais poderosas armas contra si mesma. No final, os EUA foram considerados o lado perdedor, não militar, mas politicamente, pela pressão internacional e pela pressão interna da opinião pública norte-americana.

A Guerra do Vietnã foi a primeira a ser televisada, em cores e ao vivo . A televisão levava aos lares americanos as terríveis imagens do conflito, causando indignação na opinião pública. Milhares de pessoas iam às ruas protestar contra a guerra. Lá no Vietnã, ainda no terreno da pressão psicológica, do lado dos vietcongues, o líder Ho Chi Minh, ao contrário do que fizera na guerra da Coréia, adotou a tática de não matar os americanos e sim de aleijá-los, com minas especiais. Então, quando voltassem para os EUA, todos os americanos poderiam ver o que estava acontecendo na guerra e isso seria o fim do mito do soldado americano invencível. Uma outra tática foi colocar os oficiais americanos prisioneiros, em hotéis de luxo de Hanói, a capital norte-vietnamita, para que a cidade fosse preservada de bombardeios arrasadores - já que os EUA não poderiam matar seus próprios oficiais, deliberadamente.

Sem entrar no mérito da crueldade e das atrocidades desta guerra, é bem plausível de se supor que, se não tivesse havido a intensa cobertura jornalística (com o agravante da transmissão direta), as chances de vitória dos EUA teriam sido infinitamente maiores. Uma outra observação é que, em sendo americanos e europeus, em sua maioria, os jornalistas estavam sempre filmando o que os americanos e sul-vietnamitas faziam e sofriam. Jamais estiveram do outro lado, mesmo porque nenhum comunista jamais deixou que isso acontecesse, nem em época nem em guerra nenhuma (ou, se deixou, antes de exibir para o mundo, fez os cortes necessários).

O mais importante, entretanto, é que o poder da mídia televisiva estava consolidado, especialmente no sentido de vigilância, dentro das sociedades onde imperava a liberdade de imprensa. E todas as espécies de ditadura, no mundo todo, jamais esqueceram desta lição. Não para que não permitissem que essa liberdade fosse dada aos seus próprios veículos de comunicação (porque disso eles sempre souberam), mas para incorporar a mídia do inimigo, dentro das estratégias de ataque, como mais uma de suas armas, dentro da própria casa do inimigo. Esse fenômeno deu origem ao que hoje conhecemos como "guerra assimétrica" – um prolongamento mais sofisticado da Guerra Fria, com tudo que já se conhece sobre propaganda ideológica, informações, contra-informações, espionagem e contra-espionagem.

O dilema da "autodestruição" e da "autopunição" das sociedades ocidentais livres e democráticas ainda está à espera de um gênio da estratégia, que consiga: 1) neutralizar a influência da propaganda ideológica de esquerda, na formação escolar dos indivíduos, do pré-escolar aos níveis universitários, que acaba criando uma sociedade simpática aos ideais de esquerda - mesmo que sejam puramente demagógicos; e 2) desviar o foco da vigilância social, praticada através da mídia, para o lado do inimigo – de modo que seja este último a maior vítima das cobranças. Tudo isso sem recorrer ao mecanismo de censura. Uma missão impossível, eu diria.

Será o preço da liberdade a sua própria destruição? A permissividade que foi dada à propaganda ideológica comunista, com seus apelos utópicos e demagógicos, nas sociedades democráticas, fez com que pudesse haver uma infiltração maciça de agentes anti-ocidentais nos setores formadores de opinião, permitindo que seus inimigos fossem, aos poucos, construindo a própria inexistência – primeiro, a de seus objetivos ditatoriais, depois, a de suas intenções de aniquilamento da sociedade ocidental e, finalmente, fazendo crer, ao mundo, que já não mais existiam de verdade, dissolvendo muros e "abrindo" fronteiras turísticas e comerciais (uma piada, para qualquer um que procure informações sérias sobre o assunto). Escondendo as próprias atrocidades e intenções, apontam os dedos da acusação a quaisquer tentativas de desmascaramento ou reação por parte dos agentes da cultura ocidental, fazendo-os de refém de suas próprias liberdades democráticas. Lição aprendida, o brilhantismo da tática não é mais privilégio de comunistas. É amplamente utilizado por todos aqueles que agem contra o ocidente e, ainda, em menor escala, e por associação, pelos inimigos da ordem social estabelecida nos Estados ocidentais individualmente.

Penso que não se combate um mal ou um inimigo que não se saiba da existência. A própria ignorância impede até mesmo a prevenção, por motivos óbvios. Dizem que, por conhecer muito bem a criatura, tenha sido nessa certeza hipotética que o revoltado Lúcifer teria baseado sua tática de conquista do homem, para se tornar senhor do mundo. Fantasioso ou não, esse dito fala de uma tática que pressuponha a consciência de pelo menos duas coisas fundamentais: 1) é preciso conhecer como funciona a mente do objeto de conquista – não exatamente o que ele pensa, mas como funciona sua engrenagem mental; e 2) é preciso desconstruir a própria existência – não a física, mas a de seus reais objetivos – diante do objeto de conquista. Tudo isso para que o conquistador possa agir, estratégica e livremente.

Durante esse processo de desconstrução, os inimigos da sociedade ocidental atuam ainda em mais duas outras frentes de ataque. A primeira delas procura incutir, na lógica do raciocínio cerebral dos indivíduos, um mecanismo automático de relativização. A outra atua no sentido mais físico de destruição. As duas frentes estão intimamente relacionadas e atuam com um "delay" (atraso em relação à outra), permanente, que faz uma se alimentar da outra.

O conceito de relativização, aqui, não tem nada a ver com o exercício de se colocar no lugar do outro, tentando ver o mundo com os olhos dele, para poder compreendê-lo e buscar formas de convivência harmoniosa, ou qualquer coisa parecida. A relativização, no contexto de combate, tem por objetivo a desestabilização de conceitos que componham a identidade cultural dos povos ocidentais, procurando afastar-lhes dos fundamentos de seus valores – atribuindo a estes o caráter de duvidosos – e fazendo-lhes pensar estar sempre distantes da sabedoria primitivo-popular e das lógicas naturais – sendo, por isso, artificiais e de caráter inferior.

Bem simplificadamente, é quando se atribui aos índios, por exemplo, a genialidade da civilização, por viver em harmonia com a natureza, e aos "brancos" ocidentais a burrice por buscar a sua transformação. Ou quando se atribui ao casamento monogâmico ocidental, entre homem e mulher, a característica de imposição cultural, completamente antinatural, ao mesmo tempo em que se classifica o casamento de um homem com 17 mulheres, numa tribo qualquer da África, por exemplo, como prova incontestável de naturalidade. Como se aquela tribo não tivesse chegado a esse modelo de união por contingências de sobrevivência e desenvolvimento. Exatamente como aconteceu com a sociedade ocidental.

Começa assim: ensinando as crianças a achar que as outras culturas sejam todas sabiamente naturais ou elegantemente diferentes – todas elas destruídas ou ameaçadas pela ganância, a burrice e a maldade da civilização ocidental. A repetição deste modelo de transmissão é tão intensa e tão prolongada, na formação de nossas crianças, que acaba por transformá-las em adultos de olhar viciado sobre sua própria cultura e a dos outros, dando a impressão de que devam punir-se por terem se desenvolvido tanto e que devam por isso, tudo ao outro permitir.

A frente de destruição física usa o capitalismo como "bode expiatório" e "saco de pancadas", para justificar todas as atrocidades que comete. Tráfico e indução ao consumo de drogas, ataques terroristas, violência urbana, segregação racial e social, roubo, invasões, desajuste social – tudo é culpa do capitalismo selvagem e nada financiado por agentes de destruição criados especificamente para promover o caos. Os desenvolvimentos científicos, os avanços na medicina, as melhorias das condições de conforto, os progressos das comunicações, etc., são obras do acaso. O fato de que tudo o que tenha se desenvolvido, nos países sob regimes comunistas, tenha sido produto de espionagem, contrabando e apropriação indevida de tecnologia não vem ao caso. Muito conveniente!

Todos os países pobres do mundo estão nestas condições porque o capitalismo selvagem, contrariando aos próprios anseios de expansão, teria resolvido delimitar seu próprio mercado consumidor, por achar que já produzia e consumia demais. Nenhum destes miseráveis e marginalizados países foi ou é vítima do delírio de onissapiência ufanisto-religiosa de seus governantes, nem da corrupção e da avidez de poder destes mesmos governantes. Nenhum dos países miseráveis do planeta, em se vendo impossibilitado de sobreviver economicamente, no isolamento, pretendeu supor que fosse o mundo que deveria transformar-se, para que ele pudesse existir, como acha que deva. Bem como nenhum destes países tenha sido vítima dos anseios de expansão territorial da colonização comunista. Nada disso! Todos os miseráveis do planeta devem sua infeliz realidade, exclusivamente, ao capitalismo selvagem. Um festival de mentiras e meias verdades que só proliferam e sobrevivem por causa do olhar relativizante viciado.

O capitalismo é um sistema cheio de defeitos, que precisa estar em constante transformação e não é o que se possa chamar de símbolo de justiça e equilíbrio econômico-social. Entretanto, não se deve atribuir a ele culpas que não lhe cabem, ou que, pelo menos, não lhe sejam exclusivas. Com o conhecimento científico e cultural a que se pode ter acesso nos dias de hoje, é inadmissível que tudo o que seja dito sobre as teorias contrárias ao capitalismo seja pura e simplesmente absorvido pelas pessoas, sem que haja um mínimo de reflexão a respeito.

As frentes de destruição física se impõem pelo monitoramento do medo que disseminam no interior das sociedades. O medo faz com que as pessoas se calem, principalmente quando sabem que não podem contar com a proteção do Estado. A barbárie e o sadismo sem limites do inimigo impõem pânico e silêncio. Paralisadas, as sociedades não encontram formas legais (muito menos ainda, dentro dos padrões humanitários) para reagir, abrindo espaço para que agentes mascaradores e intermediários passem a ocupar o lugar do Estado, no papel de assegurar um mínimo de condições de sobrevivência. Quando isso acontece, as sociedades passam a conviver com a "bandidagem", num cotidiano de "morde e sopra" e começa a aceitar teorias e práticas de condescendência, simplesmente buscando agradar aos "sanguinários", na esperança de que possam vir a contar com sua benevolência e consideração. Em muitos casos, todo esse processo se dá de forma inconsciente.

Eu concordo que a crítica, desprovida de soluções realizáveis, que partem de premissas falsas, embora sedutoras, porque baseadas numa idealização dos seres humanos (muito distantes da verdadeira criatura que é), seja bem mais fácil de ser absorvida pelos indivíduos do que tudo aquilo que possa fazê-los debandar a mente para o lado dos questionamentos que visem buscar a realidade. E é só por isso que as teorias "idealizantes" tenham o sucesso que têm, povoando o planeta de centenas de milhões de "papagaios" engajados, repetindo tolices, às quais não saberiam argumentar em favor, ao menor sinal de questionamento reflexivo. A não ser partir para a agressão física ou verbal, que é o que sempre acabam fazendo – ou, então, recorrem logo ao plano B: esconder-se atrás do melindre (*).

Em nosso tempo, há três correntes concorrendo para varrer do mapa a sociedade ocidental (leia-se: capitalista, cristã, liberal e democrata): 1) A dos comunistas, que pretendem impor a supremacia do Estado totalitário, provando que as democracias capitalistas não sobrevivem ao seu próprio ideal de liberdade, apesar da eficiência econômica e de já terem provado que a famosa inexorável luta de classes marxista só apareça mesmo depois da infiltração comunista (estando, porém, muito longe da inevitabilidade e tendo, ao contrário, que ser fomentada); 2) A do Islã, que pretende impor o Califado e acabar com os infiéis; e 3) A de um movimento "iluminista" que está por trás das oligarquias financeiras globalizadoras, que pretendem produzir uma única civilização mundial, idealizada, de homens com pensamentos e comportamentos uniformizados, desprovidos da consciência e do exercício do livre arbítrio – que é o que, afinal, lhes dá a condição de criatura.

Estamos em plena era da incerteza, em relação aos destinos de povos, governos e nações, no que diz respeito à sua independência, na medida em que os mercados financeiros já estejam vivendo a realidade de um mundo sem fronteiras. Esse quadro gerou uma crise de autoridade nos governos locais, que precisam estar em razoável sintonia com este mercado financeiro apátrida, mas que não podem desvencilhar-se do papel de governar e, simplesmente, assumir um papel de gerente de relacionamentos entre as populações locais e aquele mercado, principalmente se isto significar prejuízos sociais incontroláveis e intoleráveis. Parece que, pelo menos dentro desse conflito, o placar já seja de 1 a 0 para a terceira das correntes acima citadas – e não só em relação às sociedades capitalistas ocidentais, mas em relação às outras duas correntes.

Entretanto, em todos os outros patamares, há uma espécie de acordo de cavalheiros entre estas correntes, explícito ou não, para que seu objetivo seja concretizado. Depois disso, matar-se-ão, uma às outras, até que apenas uma sobreviva. Nenhuma delas tem a menor condição de conseguir êxito, enquanto a cultura ocidental tiver como seu maior representante os EUA, aliado a algumas potências européias e asiáticas. Por isso o grande investimento em promover o anti-americanismo no mundo. Nesse contexto, África, América Central e América do Sul são palcos de disputa, o que faz destes continentes alvo da importação de lutas que não lhes pertencem. A impotência diante dessa luta de gigantes, entretanto, não impede que a eles (ou a cada nação que neles habite) caiba a opção de escolher a quem se aliar, como já o fizeram, explicitamente, alguns países da Ásia.

É importante para países como o nosso, perceber, o quanto antes, que um projeto como a "Aliança das Américas" (projeto que orienta o Foro de São Paulo), por exemplo, seja uma falácia, que apenas pretenda alinhar-nos com a corrente comunista. Seremos igualmente celeiros subservientes. O sonho de se tornar uma grande potência pacífica e poliétnica deve ser sabiamente alimentado, porém, temporariamente adiado, em nome de uma profunda reflexão a respeito deste momento histórico, que demanda escolhas fundamentais. Sendo que o Brasil, particularmente, teria condições de poder fazer a escolha certa, sem ter que se render, obrigatoriamente, a um domínio servil. Ao contrário, nosso país talvez seja um dos poucos que tenha a medida certa para se tornar um importante aliado daqueles que pretendem preservar a civilização ocidental.

Por mais infantilóide que o que vou dizer possa parecer, o fato é que seja muito mais lógico que sejamos invejados pelos nossos visinhos caribenhos e sul-americanos do que por potências como os EUA, por exemplo. Por razões tão óbvias que não é preciso nem citar. Não seria nem um pouco estranho, fazer suposições sobre o mórbido prazer de ditadores como Hugo Chávez, ao assistir um país potencialmente rico, como o nosso, de dimensões continentais e habitado por um povo privilegiadamente pacífico, entrar no caminho do retrocesso – direto para o fundo do poço - sem os privilégios petrolíferos e financeiros dos quais dispõe a minúscula Venezuela – que, aliás, virou quintal da casa de Chávez. Não é à toa que o presidente venezuelano seja acusado de apoiar, inclusive com ajuda financeira, organizações terroristas do mundo todo. Na realidade, seria hora dos brasileiros começarem a pensar se Chávez não estaria muito mais para Genghis Khan, em relação à América Latina, do que aquele que ele acusa de ser imperialista – o presidente norte-americano, G. W. Bush.

Não há estratégias definidas, mas o pouco que se sabe é que, para sobreviver, a sociedade ocidental precisa:

1) Patrocinar o desmascaramento dos inimigos, privilegiando um processo de resgate das realidades histórias factuais que estão por trás das propagandas ideológicas de esquerda, desde a educação escolar até o que seja veiculado na mídia. Uma espécie de tática de patrulhamento ideológico invertido.

2) Repensar o custo-benefício da liberdade, pelo menos no atual momento histórico, uma vez que esteja sendo usada contra si mesma, no que parece ser um movimento de autodestruição. A idéia é a de que, se tivermos que perdê-la, que o façamos para nós mesmos, na esperança de que, um dia, possamos dela desfrutar novamente.

3) Promover a união, mesmo que temporária – como no acordo de cavalheiros entre as três correntes inimigas - entre todos os povos que queiram viver sob a cultura ocidental. Isso significa que, sim, há que se alinhar com as grandes potências ocidentais, sendo os EUA a maior delas. É um fato.

É compreensível que muitos odeiem o governo norte-americano, e especialmente o Presidente George W. Bush. Entretanto, creio que não seja nenhum desatino pedir que isso se dê, ao menos, por motivos mais adequados. Não se goste de Bush, por sua incapacidade de "jogar tinta sobre os inimigos invisíveis", fazendo com que possam ser vistos e reconhecidos, de maneira que se tornasse mais fácil convencer mais pessoas e países a combatê-los. Não se goste de Bush, por sua incapacidade de encontrar mecanismos para redesenhar a assimetria dessa guerra anti-ocidente, fazendo com que os vetores desequilibradores da vigilância passassem a apontar para os inimigos e não contra nós mesmos. E, finalmente, odeie-se Bush por não ter aprendido a lição que a Guerra do Vietnã deixou sobre o uso da liberdade como arma contra o próprio ocidente.

Aliás, neste último quesito, parece que o homem começou a se mexer. A revista ÉPOCA desta semana (n. 406, pág. 40 e 41) traz uma reportagem elucidativa para quem já sabe ou para quem pretende saber o que está por trás de tudo o que vem acontecendo no mundo.

Pela nossa independência, não será tão danoso apoiar os aliados pró-ocidente, nítida e claramente, quanto o será, se viermos a selar acordos de cumplicidade, com qualquer uma das três correntes contrárias – ou com as três, por indução.

(*) Artigo:

O esconderijo da incompetência é o melindre

Muitos daqueles que vêem seus argumentos derrubados ou findados, numa discussão qualquer, se refugiam no melindre, na posição de ofendidos, de modo a fazer com que aquele que tenha sido mais eficiente na argumentação deixe o palco do evento como ríspido ou até mesmo agressivo. O mais engraçado é que os ditos melindrados falam o que querem, ofendem à vontade, fazem-se de surdos aos apelos da razão, mas, sentem-se ofendidos ao ouvir uma única verdade que os faça calar.

Gritam, saem andando, choram – vale tudo para não se render à verdade. E não se está, aqui, a falar de verdades inutilmente grosseiras, como "você é um idiota", ou coisa parecida. Digo verdades que estejam relacionadas com um determinado tema qualquer, mas que envolvam diretamente o universo da vida do melindrado, como por exemplo, "você fala isso, porque nunca passou por aquilo". Pronto, é o suficiente! O melindrado sente-se mortalmente ofendido. Se estivesse seguro de suas posições, ele (que nesse caso não seria melindrado) reagiria normalmente e contra argumentaria, calmamente.

Mas, como o objetivo dos inqualificáveis é vencer a discussão e não acrescentar ou discutir – no sentido de troca – absolutamente nada, recorrem, covardemente, à posição de ofendidos, porque sabem que ganharão, ao menos, a solidariedade da maioria, que tende a proteger e amparar os mais fracos. Os mais inteligentes são sempre vistos como ríspidos, arrogantes e agressivos. A verdade é que inteligência ofende mesmo, principalmente quando diz a verdade – coisa que quase sempre faz.

Eu nunca conheci um ser humano inteligente que tenha se ofendido pessoalmente por alguém ou algum fato. Conheci, sim, os que se entristeceram por não se fazerem entender ou por não encontrarem interlocutores saudáveis. Se a inteligência e a cultura não fossem, para tantos, imperdoáveis, saberiam o tamanho do regozijo que provoca assistir o debate entre duas mentes brilhantes.

Mesmo que, aos olhos de todos, alguma coisa pareça ofensa, para os inteligentes e seguros de si, é apenas fruto de burrice ou ignorância. Não voltam para falar nada, para convencer ninguém ou buscar aprovação, pois sabem que o tempo se encarregará de demonstrar sua razão e a verdadeira face dos ofensores. Porque os mais inteligentes não precisam convencer, eles têm sempre a necessidade de acrescentar – são coisas bem diferentes.

Como nos filmes de ficção, onde somente um andróide pode reconhecer, ou mesmo perceber, a presença de outro andróide, assim se dá com aqueles que têm o dom da inteligência universal – eles são capazes de reconhecer um ao outro, no meio de uma multidão, numa simples troca de olhar (hoje, com a Internet, também na troca de e-mails). É universo para poucos e somente eles sabem o preço que pagam.

Os incompetentes e os culpados escondem-se atrás do melindre, como se, mentido para os outros, pudessem enganar suas próprias consciências, tentando, desesperadamente, convencer que sejam vítimas, quando, na verdade, não conseguem é lidar com sua incapacidade de ser aquilo que admiram. Passam a vida toda alardeando aquilo que presumem ser suas qualidades, para esconder o que, para eles, são seus irreveláveis defeitos.

Invejam a liberdade e o vínculo com a verdade dos inteligentes, punindo-os com melindres, para torná-los, aos olhos dos outros, ríspidos, agressivos ou arrogantes. São as "vítimas", os "pobre-coitados", que não assumem que foram ofendidos, não pela suposta atitude ríspida, ou "socialmente inconveniente", como diriam outros, mas sim pela verdade – que não suportam ouvir e tentam avidamente esconder, não só dos outros, mas principalmente de si mesmos.

Que Exército é esse nas ruas do Rio?

http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4689

por Christina Fontenelle

em 17 de março de 2006

Resumo: Uma das coisas que certamente contribui para o quadro de aprovação popular a ação do exército no RJ é que não se conhece muitos militares que tenham ficado milionários, durante a tal da ditadura.

© 2006 MidiaSemMascara.org

Cerca de 40 moradores do Morro da Providência protestaram, em frente ao Comando Militar do Leste (CML), na Central do Brasil, pela segunda vez em menos de 24 horas. Os manifestantes acusaram os militares de cometerem excessos, como dar tiros para o alto, obrigar o fechamento do comércio, impedir a circulação de pessoas e implantar o toque de recolher a partir das 19hs. (Folha On-Line, 10/03/2006).

...E nós, os cidadãos de bem, inclusive e principalmente, os que moram nas favelas do Rio, acusamos a bandidagem, os traficantes e os manifestantes a seu favor das mesmíssimas coisas e de outras bem piores. Quem será ouvido dessa vez?

Há anos somos reféns de um Estado Paralelo financiado pela venda de drogas, mas que todos sabem vir crescendo, incontrolável e assustadoramente, por razões infinitamente maiores e mais importantes. Por trás desse crescimento está o terrorismo, está, também, um projeto de poder esquerdopata e, ainda, por trás desse, um outro que se utiliza dele como primeiro instrumento de destruição. Só não enxerga isso quem não quer. Há muito tempo que a atuação criminosa do tráfico já deixou as raias do crime comum e a operação militar para combatê-la só não foi levada a cabo, pelo pavor que os demagogos de esquerda, finalmente todos alçados às esferas do poder, institucional ou das artes e da mídia, têm de serem flagrados na sua incompetência para governar, na sua falta de compromisso com as necessidades do povo brasileiro e no seu egocentrismo, que sempre pretendeu impor os próprios ideais como se de todos os brasileiros fossem.

Passaram anos mentindo, nas escolas, nas universidades e na mídia, dizendo que lutavam por direitos democráticos, quando se sabe muito bem que queriam era impingir o comunismo aos brasileiros, escondendo que a democracia era, isso sim, do que eles precisavam para chegar ao poder. Tanto é que hoje estão lá, fazendo o que todo mundo vê. Lutaram por seus próprios ideais e não por ideais de povo nenhum. Ao contrário, o quanto antes tivessem desistido do delírio comunista, mais cedo teriam voltado a vigorar os direitos civis de todos os brasileiros. Porque, como todos sabem, sua "luta" ia muito além das palavras e manifestações artísticas – pegavam em armas, roubavam, matavam, seqüestravam, praticavam terrorismo e tudo o mais que enfiam goela abaixo da população como plenamente justificável por ser "em nome de ideais políticos"(1).

Reinaldo Azevedo, diretor da Revista Primeira Leitura, no artigo "Exército no Rio: governo Lula é infame", depois de demonstrar indignação com o motivo que levou as tropas às ruas, pergunta: " Afinal de contas, já que, felizmente, não estamos em guerra com nenhum outro país, do que se ocupam os militares brasileiros quando não estão abortando vôos civis para embarcar de braço dado com a patroa? O que justifica que não se mobilize tal efetivo no combate ao crime organizado? Qual é o medo? Por que tememos a nossa Constituição? "

Embora eu tenha um imenso respeito pelo jornalista e não deixe de ler uma linha sequer do que escreve, desta vez discordo, humildemente. Não totalmente, mas acho que não poderiam ter alegado os militares agir por outra razão que não a que alegam, nesse caso específico, já que (aparentemente) não houve ordem superior, para que se desse a operação, nem pelo motivo alegado nem por outro qualquer – ainda que sabidamente necessário e perfeitamente legal. Os dois parágrafos que antecedem o anterior já seriam uma boa resposta à parte das indagações de Reinaldo. Faltou a autorização e o apoio dos homens que dirigem esse país, para que as FFAA agissem da mesma maneira, no sentido de defender, a já exausta população, da criminalidade.

Foi o medo de ver a satisfação popular. O medo de encarar a verdade sobre a disparidade entre os ideais de esquerda e os da esmagadora maioria dos brasileiros. O medo não era e ainda não é sem razão, porque, mesmo depois de mais de 20 anos de humilhação e execração públicas, praticada pela mídia e pelos meios acadêmicos, sobre as FFAA, o povo não parece temê-las e muito menos odiá-las. Em todas as enquetes promovidas na Internet, os resultados menos favoráveis à operação e à presença do Exército nas ruas revelaram 92% de APROVAÇÃO. Isso para não citar a "chuva" de comentários pedindo, inclusive, que as FFAA expandissem essa ação para várias outras cidades brasileiras e quiçá para acabar com o antro de corrupção nacional. Não são dados oficiais, mas foram 228 armas apreendidas, 38 apreensões de drogas e 13 autos de resistência à prisão, até agora. Sem falar nas inacreditáveis taxas de diminuição dos mais diversos tipos de crime, nas áreas onde os militares estiveram presentes – durante o tempo que permaneceram, é claro.

O DIA On-line: Você é contra ou a favor da ocupação de favelas pelo Exército?

A favor 93,79% (17195 votos)

Contra 5,09% (933 votos)

Não sei 1,12% (206 votos)

Total: 18334 votos

Site TERRA: Você é a favor da ocupação do Exército nas favelas do Rio?
O seu voto já foi computado

Sim - 95.28 % - 151140 votos
Não - 4.72 % - 7482 votos
Total: 158622 votos

Nessa outra enquete, a pergunta já é sobre uma possível continuidade das tropas nas favelas e sobre a questão da segurança:

O GLOBO On-Line: A presença do Exército em favelas aumenta a segurança da população?

Sim, e deveria continuar após operação para recuperar armas - 88.52%
Não, os soldados não são treinados e preparados para isso - 11.48%

Total de votos para esta pesquisa: 9545

Dizer que Internet só revela opinião de classe média e alta é um tanto quanto relativo. Entretanto, afirmar que os moradores das favelas estejam emudecidos pelas leis do tráfico – que é o "Estado" a que estão submetidos – é unanimidade. A opinião dessa gente está nos olhares e no lento caminhar, de cabeça baixa, a caminho do trabalho. Dizem, em off, por motivos óbvios, que tem gente até querendo homenagear os rapazes que roubaram as tais das armas, por terem acabado por provocar essa reação do Exército. Essas mesmas pessoas confessam que estão rezando para que as armas não sejam encontradas tão cedo, de modo que a operação não acabe. Tem gente, nas comunidades, batendo continência para traficante, mas acendendo vela e fazendo promessa pra soldado. Uns e outros já fazem planos de pintar a casa, de ornamentar um pequeno jardim na entrada e de comprar bicicleta para os filhos andarem pelas ruas e nas quadras comunitárias de esportes, sem o risco de serem alvos de tiros e de aliciamento pelos traficantes. Tem escola particular pensando em abrir filial dentro da comunidade, com preços mais reduzidos, direito à creche e uniforme verde e amarelo para as crianças. São muitos os planos e os sonhos...

Uma das coisas que certamente contribui para esse quadro de aprovação popular é que não se conhece, de fato, muitos militares (talvez nenhum) que tenham ficado milionários, durante a tal da ditadura. Jamais houve, por parte daqueles homens, auto-reajustes salariais absurdos e desproporcionais como se vê, há anos, neste país, praticarem todos os políticos e seus vizinhos do Judiciário. Vai ver que o pessoal da tal ditadura estivesse mesmo preocupado em industrializar o país, em construir usinas hidrelétricas e nucleares, em construir estradas, em garantir aos brasileiros o direito de ir e vir com segurança e coisas desse tipo. Ficaram ocupados com essas bobagens e esqueceram de seu próprio enriquecimento, de fazer conchavos políticos, de fazer apologia da democracia da miséria. Foi um lapso. Houve erros, sim, inclusive de estratégia econômica e certamente deve ter havido casos isolados de corrupção. O problema é que a população acredita no que viu e, muito mais ainda, no que possa ter dito o silêncio dos militares, por todos esses anos, do que na propaganda toda que se fez, e ainda se faz, contra eles.

Entretanto, há um outro aspecto sobre o qual o imaginário popular, em relação às FFAA, talvez ainda não tenha se dado conta. São mais de vinte anos de silêncio, de apatia diante dos dragões do revanchismo, de falta de aparelhamento adequado, de sistêmica desvalorização salarial, de falta de investimento em inteligência e educação. Isso tem conseqüências. As Forças de ontem não são mais as que temos hoje. Há quem diga, literalmente, que a Força está dividida em três grupos de militar:

1) Os ufanistas antiimperialistas, que acham que tudo o que acontece de errado com o país e com as próprias FFAA seja obra dos EUA, para fincar as garras do império capitalista sobre as riquezas brasileiras e latino-americanas, ameaçando, permanentemente, sua soberania nacional. Nesse ponto (e sinceramente esperamos que seja só nesse) não há como negar que haja algo de muito comum entre o que pensam estes militares e o que conduz a política externa do governo Lula. Com certeza (espera-se, fervorosamente, também), o que alimenta o antiamericanismo de um não seja o mesmo que está por trás do comportamento do outro. Mas, novamente, não há como negar que esta interseção na maneira de pensar possa fazer com que um engane o outro.

Por exemplo, durante a campanha presidencial de 2002, Lula esteve no Clube da Aeronáutica (RJ) e deu a entender que tinha intenção de desafiar os acordos de não-proliferação nuclear e aventou até a possibilidade de o Brasil fabricar a bomba atômica. Outro exemplo aconteceu numa sessão conjunta das comissões de Relações Exteriores da Câmara e do Senado, no dia 19 de junho de 2002, quando Lula prometeu transformar o Brasil em uma potência militar, dizendo: "...só há três maneiras de um país ser respeitado: 1) pelo domínio tecnológico; 2) pelo poder econômico; e 3) sendo uma potência militar". E, finalmente, versa que, em 2005, elementos representando a ESG/ADESG teriam realizado palestra para oficiais militares, em Recife (PE), dando voz à teoria do General russo Leonid Ivashov, segundo a qual os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono (11/09/2001) teriam sido montagens holiwoodianas, criadas por George W. Bush, para desestabilizar a ordem mundial da ONU e impor o domínio americano a todo o planeta.

Eu não inventei nada. Consultem: Defesanet e o artigo Encenações, de José Luiz Sávio Costa.

2) O segundo grupo seria o daqueles que "não estão nem aí", que se transformaram em funcionalismo público ordinário, sem o menor interesse por política ou por questões de identidade nacional (2). Disse, certa vez, o General Luiz H. de Oliveira Domingues, num artigo intitulado, Licenciamento Antecipado: "Fico mais preocupado quando ouço dizer que os nossos tenentes e capitães "não estão nem aí", do que quando dizem que falta dinheiro. Sempre faltou". Estão mais para vítimas do regime revanchista dos últimos 20 anos, do que para produto dele – que seriam mais bem representados pelos do primeiro grupo. Cumprem horários e sonham com a aposentadoria, para, finalmente, começarem a trabalhar. Nos altos postos de comando, fazem parte desse grupo aqueles que se interessam apenas em desfrutar dos poucos privilégios que o silêncio conivente os permite desfrutar, para que possam, pelo menos depois de idosos, viver uma vida mais confortável. Muitos deles até sorriem para o poder, associam-se a ele, num exercício de auto-enganação. São deslumbrados no poder. Bem ao gosto daqueles que os colocam lá - no caso, os governantes.

3) Finalmente, são, estes últimos, aqueles que fazem parte do que está no imaginário popular. São homens que têm a preocupação de se manter em sintonia com a identidade nacional e com o que acontece no mundo. Homens dispostos a se render aos anseios do povo brasileiro, a respeitar a ordem e a Constituição. São homens que dedicam suas carreiras ao aprendizado, que estudam, que se preocupam com as tropas, que almejam melhores condições de trabalho, que desejam a modernização dos equipamentos, que defendem projetos nacionais de segurança. Homens que gostam do que fazem, que respeitam as fardas que usam. Este grupo não tem nome, porque qualquer nome que se desse não conseguiria fugir da parcialidade. São obedientes sim, mas somente à Constituição – governos passam, as FFAA ficam.

Vale uma observação, antes de continuar no tema da operação do Exército. É bom que fique claro que as características dos que pertencem ao primeiro e ao terceiro grupos não são necessariamente excludentes. Os objetivos dos dois seriam os mesmos – defender a soberania nacional, os interesses do povo e a integridade do território brasileiro. Os motivos e a estratégia é que são diferentes. Nesse sentido, a razão principal dessa situação é a carência de um serviço de inteligência competentemente orientado (o que naturalmente é proposital) e a deficiência na formação intelectual das tropas. A não ser por iniciativa própria (e individual) o militar (como todos os brasileiros) é carente de literatura daquilo que chamo de macro visão da conectividade entre causa e efeito das forças sociais, políticas e econômicas que movem o mundo. Uma das conseqüências mais imediatas dessa carência é fazer com que se confunda Imperialismo Globalizante com Imperialismo Estadunidense, ou que se confunda "queda do muro de Berlim", "Perestroika Soviética" e "abertura do mercado chinês" com o fim do comunismo. Não é preciso ser muito inteligente para saber o que a não consciência disso pode significar para um país. O terceiro grupo sabe, o primeiro não. E, somente aí, reside a diferença entre os dois.

Voltando ao assunto da operação militar, fica a pergunta: qual destas três correntes militares está por trás da presença do Exército nas ruas do Rio de Janeiro? Sim, porque há algumas boas considerações a fazer a respeito desta operação. Há, certamente, um "elo perdido", uma espécie de desconexão entre o motivo, o tamanho e a forma da ação. A coisa toda pareceu de uma teatralidade (perigosa, é verdade, uma vez que coloca vidas humanas em risco) que pode ter conseqüências que fujam completamente dos planos de quem orquestrou, de quem empreendeu e de quem autorizou. Não necessariamente nesta ordem e nem na mesma intensidade.

Uma primeira relevante consideração já foi feita pelo jornalista Fábio Santos, em seu artigo "Entrou tem de ficar", no site da revista Primeira Leitura: "Há quem diga que esta ação está sendo planejada há tempos e que o episódio do roubo foi utilizado apenas como desculpa. O objetivo seria o governo federal mostrar serviço em ano eleitoral. Que os militares estão se preparando há tempos para esse tipo de ação é mais do que óbvio. Essa foi inclusive uma das motivações estratégicas para que fossem enviadas forças brasileiras ao Haiti. Lá eles fazem exatamente o que deveriam fazer por aqui. Agora, se a idéia é ganhar pontos nas eleições, com o perdão do trocadilho, o tiro pode sair pela culatra. O governo está preparado para sustentar essa operação pelo tempo que for necessário? Não me parece ".

A hipótese é perfeitamente cabível. E, certamente, por trás dela estariam os militares do primeiro grupo. Há boas razões para se embarcar nessa conclusão por causa da conivência do governo federal com a operação. Entretanto, teria sido ela um teste? Sim, porque, se fosse para valer, os soldados teriam sido em maior número e o cerco viria varrendo os morros de cima para baixo e de baixo para cima, de modo a encurralar os traficantes. Teria sido um teste para tomar a medida da reação da mídia e das ONGs? A reação da Rede Globo (Pró Lula), revelando os aspectos positivos, encarando com seriedade, tanto o motivo como a operação em si, oferece uma boa pista a esse respeito: as oposições tiveram pouca voz. Teria sido um teste para saber em que medida a população das comunidades poderia sofrer e em que número poderia ser usada para escudar os traficantes? Foram quatro levemente feridos e um morto – supostamente por traficantes. Nada mal.

Uma outra hipótese, que não elimina totalmente a primeira, acima citada, é a de que uma operação como essa que, premeditadamente não seria levada até às últimas conseqüências, acabaria por desmoralizar, publicamente e de vez, as FFAA, fazendo com que se justificasse uma "reforma" nas FFAA (nos moldes do governo, é claro) ou a necessidade de criar uma força nacional especial (e aí entrariam os homens que estão sendo treinados no Haiti), de caráter independente e sob às ordens diretas da Presidência da República, para combater o tráfico (de drogas, de armas, etc.) e outros crimes que envolvessem assuntos de defesa nacional – seria a criação do braço armado fiel às ordens e aos ideais do governo (e não do povo e da Constituição, como o são as FFAA). Tudo como o Foro de São Paulo recomenda. Poderia até vir a provocar o suicídio de muito comandante militar que se descobrisse como instrumento de um planejamento desses, sem encontrar saída - que não pusesse em risco a vida de seus familiares - para voltar atrás. "Viagem?" Pode ser, mas em se tratando de levantar hipóteses, a gente tem que pensar em tudo e, em sendo inconcebível no mínimo daria um bom argumento para uma estória de ficção.

Para reforçar, ainda, esta hipótese, espalhando a impressão de caos: invasões sistemáticas do MST, incluindo a prática de vandalismo, desmoralização do Congresso, com absolvições inadmissíveis no Conselho de Ética e o toque final – a última cereja na decoração do bolo – o Comandante do Exército, parecendo ignorar todo o patrulhamento que existe em torno da figura militar, comete um excesso, exigindo viajar num vôo que já estava lotado – em que pese uma série de considerações que devem ser feitas em relação a este episódio.

Mostrar serviço em ano de eleição? Se for esse o caso (o que eu não acredito), piorou ainda mais a situação de Lula: perdeu para a própria cegueira (não sabia de nada), perdeu para a corrupção, perdeu para a impunidade, perdeu para as pizzas do Congresso e, agora, perdeu para o tráfico. Uma tragédia. E, burrice tem limite. A hipótese existe, mas é pouco provável.

Ainda existe a possibilidade de a operação ter sido organizada por militares do terceiro grupo, no auge de sua intolerância com o desgoverno do país, numa última tentativa de dizer ao Estado Paralelo que ainda existe um inimigo difícil de vencer nos limites do Estado Institucional. A esses militares interessaria dar um recado – e danem-se as conseqüências disso para o "Desgoverno" Federal. Já mostraram um pouco do que podem fazer – voltam para os quartéis e esperam que ações como as do roubo das armas não aconteçam mais. Afinal, já houve uma série de operações com a finalidade de recuperar armas roubadas. Numa delas, aconteceu a morte de um Cabo, ferido por um tiro de fuzil, dado por traficantes – e não houve nenhum alarde na imprensa a respeito disso e nem das outras operações. O motivo da magnitude desta operação, em particular, seria o de colocar um ponto final em ações criminosas desse tipo. Recado dado e armas encontradas, as tropas saem, aos poucos, de circulação e voltam ao que antes faziam, até que as armas sejam recuperadas. Entretanto, voltam com a esperança de que alguém os reconduza legalmente para as ruas com a finalidade de lutar, até às ultimas conseqüências, para tirar o Rio de janeiro de seu desespero.

E fica a pergunta: "Qual desses Exércitos que, em nome do Exército, está nas ruas do Rio?" Se for o do primeiro grupo, resta-nos chorar e assistir, impotentes, à chegada do pior. O pessoal do segundo grupo está nas academias ou nos bares das esquinas, malhando ou tomando chope com os amigos. Se for o do terceiro grupo, é mal, também, ainda que menos mal, pois, ficará tudo como dantes no quartel de Abrantes. O que a população gostaria que fosse, infelizmente, parece estar fora de cogitação. Quem sabe se lembram disso, na hora de votar, e optem por candidatos comprometidos com a questão da violência, sob o ponto de vista das Forças Armadas e não das ONGs que apregoam a "coitadização" dos criminosos? É uma opção.

Na verdade, a população gostaria de ver nas ruas o Exército dos homens do terceiro grupo, comprometidos com a Constituição e com o povo brasileiro. Alguém se atreveria a fazer um referendo sobre a possibilidade de a população decidir se gostaria que as FFAA colocassem um pouco de ordem nas Instituições, no Congresso e nos rumos sócio-político-econômicos do país? Mesmo que para isso tivessem que deixar de votar em candidatos e, por exemplo, tivessem que passar a votar, em referendos, sobre propostas de governo e de leis? Acho que poucos se atreveriam. E, por falar em povo, sabem por que não sai às ruas, como em 1964, para pedir que as FFAA recoloquem o país nos trilhos? Dizem por aí, em resposta aos de dentro das FFAA, de que é preciso uma manifestação clara da população para que estas venham em seu socorro, que as pessoas não vão às ruas por medo de acabarem como um tal de "Celso Dani...alguma coisa" ou levando chumbo dos criminosos e de quem os apóia. Será? E dizem também que, se chovessem avisos do céu garantido que nem uma coisa nem outra aconteceria, o Brasil inteiro sairia de casa para pedir por isso. Será?

Enquanto isso, os brasileiros assistem, desolados, os cidadãos de bem da Cidade Maravilhosa sitiados por "Estados de Poder Paralelo", que enfrentam o Exército brasileiro, com armas e homens, defendendo territórios que chamam de seus. Criminosos dizendo ao mundo que tomaram, ao Brasil, partes de seu território, sem que encontrassem quem os impedisse de fazê-lo. Diante de uma situação dessas, que dirão as ONGs dos direitos humanos sobre a responsabilidade que lhes cabe nesse quadro? O de sempre: "coitadizarão" os criminosos. Que dirão as esquerdas egocêntricas? Receberão os cidadãos brasileiros indenização por exílio ou aprisionamento – cercados por grades e portas de ferro, dentro de suas próprias casas – como as que recebem, hoje, (do Estado e com o dinheiro dos brasileiros) aqueles que, se não contribuíram com instrução terrorista, o fizeram com a sua conivência e omissão? Ficam no ar estas perguntas...

E, para infelicidade de todos, o CML acaba de anunciar que as armas roubadas foram encontradas. O sonho acabou...

Só para constar, a despeito de toda essa demonstração de eficiência, cumprindo os objetivos da missão, sem provocar a morte de nenhum brasileiro, o ministro Márcio Thomaz Bastos confirmou que Lula ordenou o generoso aumento de 59% para os agentes e de 76% para os delegados da Polícia Federal. Os militares obtiveram um reajuste de 23%, em duas parcelas, depois de anos sem um reajuste sequer: 13% no ano passado e, este ano, ainda estão à espera dos 10% restantes.

Milagre na Sapucaí

http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4643

por Christina Fontenelle

em 06 de março de 2006

Resumo: O desfile das Escolas de Samba do Rio mostrou, ao vivo, que o Brasil se vende por qualquer milhão de dólar – seja em forma de doação para Escolas de Samba ou em forma de doações para campanhas eleitorais, disfarçadas de investimentos em publicidade.

© 2006 MidiaSemMascara.org

Gosto é realmente uma coisa que não se discute. Todo ano é a mesma coisa: tem sempre quem não fique satisfeito com o resultado da apuração do desfile das escolas de samba do Rio. Eu mesma jamais poderia ser jurada de concurso de Escola de Samba; daria 10 para tudo e para todos – se não fosse pelo quesito em si, seria pela consideração ao trabalho, à dedicação e ao espetáculo. Não há dúvida de que a subjetividade tenha lá seu peso, mas existem regras e requisitos que devem ser lavados em consideração na hora de dar as notas. Parece que, nesse Carnaval, prevaleceu a subjetividade.

Em 12 de agosto de 1928, o cantor e compositor Ismael Silva e sambistas do bairro do Estácio fundaram a primeira escola de samba do Rio de Janeiro: a Deixa Falar. O primeiro desfile oficial aconteceu em 1935, na antiga Praça Onze e, por mais de 30 anos, foi realizado sem a cobrança de ingresso. No fim dos anos 60, o Carnaval começa a ganhar os contornos atuais, passando a acontecer, primeiro, na avenida Presidente Vargas e, depois, na Marquês de Sapucaí. Em 1984, durante o governo de Leonel Brizola, foi construída a Passarela do Samba (Sambódromo), projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer - um complexo com 700 metros de extensão e capacidade para abrigar 62 mil espectadores.

Hoje, o espetáculo das Escolas de Samba não só é auto-sustentável, como também dá muito lucro. As Escolas têm participação no que é arrecadado com a venda de ingressos, de CDs e DVDs e nos ganhos com as transmissões de TV - num espetáculo assistido por mais de 2 milhões de pessoas, no mundo todo. Asseguram cerca de 30 mil empregos fixos, diretos e indiretos, e são as maiores responsáveis por tudo que se arrecada com o turismo, na cidade do Rio de Janeiro, durante o Carnaval. Um exemplo de empreendimento capitalista bem sucedido no mundo das artes.

Este ano, o maior espetáculo “artístico-popular-capitalista” da terra, de criação exclusivamente brasileira, premiou um enredo socialista revolucionário, patrocinado, pela primeira vez na história do Carnaval carioca, por uma empresa estrangeira com fins evidentemente políticos. Sim, porque a vitória foi do tema – a escola que o desfilava era mera formalidade, poderia ter sido qualquer uma que tivesse topado o patrocínio da estatal venezuelana do Petróleo, PDVSA, maior empresa do país governado por Hugo Chávez, que doou cerca de U$ 1.500 milhão.

A estatal venezuelana aproveita o carnaval e divulga a campanha “Petróleo para a integração dos povos”, com anúncios em rádio, TV e ônibus, incluindo, ainda, um outdoor gigante no Sambódromo. Nos últimos anos, a PDVSA, sócia da Petrobras num projeto de US$ 2,5 bilhões, abriu no Pará 12 dos 80 postos de gasolina prometidos pela Petrobrás, para o Norte e o Nordeste do Brasil – a Petrobrás não abriu nenhum ainda. O chefe da Seção de Política e Comunicação da Embaixada da Venezuela, Nelson Gonzalez, informou que há interesse em ampliar presença em países da região, alinhados ideologicamente com o governo Chávez.

O enredo "Soy loco por ti, América - A Vila canta a latinidade" pretendeu contar a saga do continente e das miscigenações, pelas mãos do carnavalesco Alexandre Louzada. Carros alegóricos homenageavam figuras como Che Guevara e Gabriel García Marquez, passando pela festa dos mortos mexicana. O carro que fechou o desfile fez uma homenagem a Simón Bolívar, com um boneco do “herói da independência sul-americana”, com 13 metros de altura. Joãozinho Trinta puxou a escola numa cadeira de rodas motorizada – o que, sem dúvida nenhuma, pode ter influenciado o caráter subjetivo das notas majoritárias da Vila Isabel. E, se fosse só por isso, teria sido talvez até meritório.

A escola contou com 3.880 integrantes e 34 alas. De acordo com o carnavalesco, Alexandre, a escola entrou na avenida para fazer uma crítica aos colonizadores que, segundo a visão dele, só pensavam em tirar proveito da terra, trazendo com eles a morte espiritual do continente, massacrando as crenças e culturas locais. Apaixonada pela agremiação, a atriz Letícia Spiller desfilou pela escola e, ao término da apresentação fez uma declaração, a um repórter da TV Globo, dizendo que já estava mesmo na hora de despertar o espírito revolucionário do povo e de promover a união da América Latina... Blá, blá, blá,... E terminou: “Hay que endurecerce pero sin perder la ternura jamás!”. Mostrou a que veio...

A primeira vez que a Unidos de Vila Isabel ganhou o Carnaval carioca foi em 1988. No ano passado, a escola ficou em 10º lugar. Este ano, praticamente não recebeu votos nas enquetes de sites e blogs e nem das pesquisas feitas no próprio Sambódromo, sobre quem seria a campeã de 2006 e não mereceu um único prêmio do Estandarte de Ouro – prêmio do jornal O Globo –, que divulga seus premiados antes da apuração oficial dos resultados do desfile das escolas de samba.

Desde a sua criação, o Estandarte de Ouro sempre esteve mais ou menos em sintonia com os resultados oficiais. A escola que vence o Carnaval, se não coincide com a agraciada com o prêmio do Estandarte de Melhor Escola de Samba, certamente vence em pelo menos uma das outras 19 categorias que já fizeram parte desta premiação (hoje são só 15 categorias). E, justificadamente, a escola que recebe o prêmio de Melhor Escola de Samba acaba sendo também premiada em outras categorias.

Fenômeno igual a este que ocorreu com a Vila Isabel, agora em 2006, aconteceu somente em outras três ocasiões. Em 1990, quando a Mocidade Independente de Padre Miguel venceu o Carnaval e não recebeu nenhum prêmio do Estandarte, que agraciou a Mangueira, a oitava colocada oficialmente com nada menos que 6 prêmios (Melhor Escola, Puxador, Samba Enredo, Bateria, Ala das Baianas e Passista Masculino). Em 1999, quando, agora do outro lado, a Mocidade Independente de Padre Miguel ganhou os prêmios de Melhor Escola, Melhor Enredo, Mestre-Sala e Revelação, do Estandarte de Ouro e foi a quarta colocada no desfile oficial - a campeã do Carnaval, a Imperatriz Leopoldinense, não recebeu nenhum prêmio do Estandarte. E, finalmente, em 2004, cuja campeã do Carnaval, a Beija-Flor, não foi premiada em nenhuma das 15 categorias do Estandarte de Ouro e a Império Serrano, nona colocada no resultado oficial, levou 5 prêmios (Melhor Escola, Samba Enredo, Bateria, Puxador e Ala das Baianas).

Até bem pouco antes dos resultados da apuração, os jornais anunciavam que cinco escolas estavam na briga pelo título: Mangueira, Beija-Flor, Unidos da Tijuca, Império Serrano e Viradouro. Entretanto, contrariando todas as previsões, venceu a Vila Isabel. Tanto que, no Sambódromo, havia muito pouca gente para torcer pela escola durante a apuração. Até mesmo um dia depois da vitória, Sandra Anenberg, na bancada do Jornal Hoje, da TV Globo, de quinta-feira dia 2 de março, deixou escapar: “A Unidos de Vila Isabel ainda comemora a inesperada vitória...”.

Enquanto isso, lá na Venezuela os jornais destacavam em suas manchetes do dia 2 de março, a vitória da Unidos de Vila Isabel, no Carnaval do Rio. Um deles, o "Reporte" assegurou que mais de 500 “bolivarianos” viajaram para o Rio de Janeiro, com todas as despesas pagas, para animar o desfile da Vila. O que justificaria os gritos de “é campeã”, surgidos do nada e sem justificativa plausível, a partir das arquibancadas do Sambódromo, logo após o término da apresentação da escola, e quem estava lá sabe disso. "Enquanto em Caracas o povo recebe um carnaval de segunda (...), mais de 500 bolivarianos viajaram ao sambódromo do Rio de Janeiro, com todas as despesas pagas, para enaltecer o Bolívar carnavalesco da escola de samba paga pela 'Choroesa'", diz a matéria do jornal, referindo-se ao roubo de dinheiro público em que a PDVSA estaria supostamente envolvida.

A Vila Isabel levou o título de Campeã do Desfile das Escolas de Samba de 2006, com 397,6 pontos e a Grande Rio ficou com o segundo lugar, por ter perdido 0,2 pontos, devido a um pequeno atraso para ultrapassar a linha que demarca o fim do desfile, ficando com iguais 397,6 pontos (quando teria ficado com 397,8, se não fosse pelo erro) e por ter perdido no quesito de desempate – Samba Enredo – por 1 décimo (39,8 para a GR e 39,9 para a VI). A Viradouro, terceira colocada, ficou com 397,2 pontos, a Mangueira, em quarto, com 397,1 pontos e a Beija Flor, em quinto, com iguais 397,1 pontos, desempatados no quesito seguinte ao samba-enredo, já que as duas ficaram empatadas neste quesito, cada uma com 40 pontos. A Unidos da Tijuca amargou um sexto lugar, com 396,7 pontos. Como se pode observar, é uma disputa acirrada, onde qualquer décimo pode fazer a diferença entre perder e vencer.

A indicação do Corpo de Julgadores é atribuição exclusiva do Presidente da LIESA, Ailton Guimarães Jorge. Há quem tenha sido convidado a integrar o corpo do júri por ser célebre no que faz e outros que simplesmente enviaram um currículo para a LIESA e conseguiram a vaga. Para cada um dos 10 quesitos em julgamento (bateria, samba-enredo, harmonia, evolução, enredo, conjunto, alegorias e adereços, fantasias, comissão de frente e mestre-sala e porta-bandeira), foram selecionados quatro Julgadores, perfazendo um total de quarenta. Eles foram apresentados à imprensa no dia 23 de janeiro de 2006. Os 40 julgadores ficaram dispostos no Sambódromo em 4 módulos, cada um com 10 integrantes – um de cada quesito. Todas as notas diferentes de 10 devem, obrigatoriamente, ser justificadas por escrito, no Caderno de Julgamento, o que só deve ser feito após o desfile da última Escola a se apresentar na Segunda-feira de carnaval.

No quadro de notas do desfile de 2006 não se pode dizer que tenha havido nenhum disparate absurdamente incoerente. Entretanto, há notas que alimentam certa curiosidade. A Unidos da Tijuca, por exemplo, no quesito Fantasia recebeu de apenas um dos julgadores a nota 9,3, quando todos os outros deram 10. Este mesmo julgador deu 9,5 para a Rocinha, desta vez, porém, já em sintonia com os outros julgadores, uma vez que essa escola foi a que teve as notas mais baixas, não só nesse mas em todos os outros quesitos – tanto que ficou em último lugar. O mesmo julgador também foi desproporcional, ao dar 9,3 para um Salgueiro que recebeu 9,8 – 10 – 10 dos outros julgadores.

Há alguns outros poucos exemplos deste tipo, mas que não vale a pena ficar analisando, por causa do contexto de suposta subjetividade em que estão inseridos. Mesmo porque teria que se admitir que Grande Rio tivesse se atrasado de propósito. Haveria ainda a possibilidade de se empenhar em verificar, por exemplo, se as tais desproporcionalidades teriam acontecido em notas de julgadores que estivessem num mesmo módulo, apesar de estarem julgando quesitos diferentes. Se levarmos, então, para o lado da aplicação de conhecimentos matemáticos que podem encontrar padrões, detectar o uso de probabilidades, etc., aí a coisa poderia ir longe demais!

É claro que todo mundo pensa na possibilidade de ter havido alguma desonestidade, principalmente quando acontecem surpresas como a deste Carnaval. Mas, é melhor que se fique com outras alternativas – a do milagre, por exemplo! E realmente é o que deve ter acontecido, já que, mesmo sendo surpreendente, a vitória da Vila Isabel não provocou um único protesto sequer na mídia, nem mesmo por parte dos dirigentes de outras Escolas, ao contrário do que costuma acontecer em todos os outros anos. Deve ter sido milagre mesmo!

Por outro lado, o Brasil teve a oportunidade de mostrar para o mundo que Hugo Chávez pode mandar e desmandar até na nossa mais mundialmente conhecida forma de expressão cultural – o Carnaval. Pudemos passar a mensagem, ainda que nós brasileiros saibamos ser mentirosa, de que nosso povo “fecha” com o delírio do “filhote de Fidel Castro”. O candidato a Imperador da América Latina, Hugo Chávez, teve a chance de gritar ao planeta que o Brasil não é fantoche do imperialismo norte-americano – optou por servir a um império mais próximo que surge de um país bem menor: a grande Venezuela. Prova pior que dar a vitória para a escola patrocinada por Chávez foram as fotos que circularam o mundo, mostrando as bandeiras da Venezuela nas mãos dos integrantes que comemoravam a vitória na quadra da Vila Isabel. O desfile das Escolas de Samba do Rio mostrou, ao vivo, a pelo menos 2 milhões de pessoas que o Brasil se vende por qualquer milhão de dólar – seja em forma de doação para Escolas de Samba ou em forma de doações para campanhas eleitorais, disfarçadas de investimentos em publicidade.

Mas, como tudo está ótimo e formidável, todos sorriem e ninguém contesta nada, já se pode até começar a pensar nos temas para o desfile de 2007 que poderiam ser coisas do tipo:

(1) Vitória do Povo: Lula não sabia, foi traído, deu a volta por cima e foi reeleito.

(2) Vencendo o Imperialismo: A Luta dos Oprimidos.

O enredo falaria da inevitável queda do império norte-americano. Começaria mostrando o império estadunidense dominando, destruindo e oprimindo milhares de povos e culturas do planeta; passaria pela derrota norte-americana no Vietnã e iria até a grande vingança do 11 de setembro; a partir daí, a América Latina se uniria, sob o comando do libertador Hugo Chávez e ajudaria o mundo a aniquilar os EUA; no final, a vitória de um mundo livre, justo e fraterno, formando um reinado mundial, governado por seus libertadores: Fidel Castro, Hugo Chávez e Bin Laden. Um paraíso!